terça-feira, 23 de junho de 2015

O debate sobre o acordo ortográfico que obrigou a uma ata (e a uma acta) da CPLP com duas grafias



O acordo ortográfico tirou o “C” de “ata” e uma reunião oficial e de alto nível discutiu a eventualidade de se confundir a ata - o documento oficial - com o ato de atar pessoas. Portugal manifestou-se contra a existência de uma ata na grafia pré-acordo, Angola a favor: “Quando a forma ortográfica muda, as palavras não significam a mesma coisa”, defendeu um governante angolano

Exigências de Angola e Moçambique sobre o Acordo Ortográfico (AO) obrigaram à alteração da ata final da XIV Conferência dos Ministros da Justiça da CPLP, em Díli, para incluir, ao longo de todo o texto, as duas grafias.
Esta foi a solução encontrada depois de um debate que incluiu referências múltiplas à "língua de Camões" e até a análise etimológica da palavra "ata", que o representante da Guiné-Bissau disse poder suscitar uma interpretação alternativa "de atar pessoas".
A solução, proposta pelo ministro da Justiça de Cabo Verde, foi necessária para evitar a alternativa defendida inicialmente pelos representantes de Angola e Moçambique: duas atas, uma na grafia do AO e outra na grafia pré-AO.
Essa posição foi rejeitada por Portugal, Cabo Verde, Brasil e São Tomé e Príncipe, que consideraram que essa alternativa não faria sentido numa comunidade que fala a mesma língua, sendo prejudicial porque daria 'armas' aos que contestam a CPLP.
O representante do secretariado executivo da CPLP recordou, por seu lado, que o critério usado até aqui nas cimeiras de Chefes de Estado e de Governo e nos encontros setoriais da comunidade tem sido de recorrer à grafia usada no país onde decorre a reunião.
Nesse caso, e a manter-se esse critério, a ata final da reunião de Díli seria feita com a grafia do AO, que já foi ratificado por Timor-Leste. 
A polémica marcou a sessão de encerramento da XIV Conferência quando os representantes nacionais se preparavam para aprovar o texto das 17 páginas da ata final do encontro, que passou a incluir a grafia do AO como base e a grafia pré-AO entre parenteses.
O debate começou quando estava para ser lida a ata final, tendo o secretário de Estado dos Direitos Humanos angolano, António Bento Bembe, afirmado que Angola ainda não tinha ratificado o AO, questionando por isso o seu uso no texto.
"A questão aqui não é como falamos, mas como escrevemos. Quando a forma ortográfica muda, as palavras não significam a mesma coisa", disse António Bento Bembe.
"Uma vez que se chega a este acordo na base do consenso, não posso assinar este documento que não está escrito da forma que se fala em Angola. Camões não escreveu assim", disse. 
A posição foi ecoada pelo ministro da Justiça de Moçambique, Abdurremane Lino de Almeida, e pelo representante da Guiné-Bissau, tendo o secretário de Estado da Justiça português, António Manuel da Costa Moura, afirmando que a decisão deveria caber a Timor-Leste, já que a ata foi escrita em Díli.
"Ter duas atas seria um prato de lentilhas para quem quisesse explorar divergências sobre a língua numa comunidade que fala português. Percebo a questão e tenho até uma opinião pessoal. Mas ter duas versões de uma mesma língua, de uma reunião, de uma comunidade, que fala uma língua não será muito boa ideia", disse Costa Moura.
Também o ministro da Justiça de Cabo Verde, José Carlos Lopes, e o de São Tomé e Príncipe, Roberto Pedro Raposo, questionaram a opção das duas atas, propondo um voto ou a definição, pela presidência, do critério a seguir.
"Independente do respeito que tenho pelas pessoas que ainda não ratificaram o AO, ter duas atas é contraditório. Falamos a mesma língua", disse Raposo, sugerindo que a ata incluísse uma nota a recordar os países que ainda não ratificaram o AO.
Guiné-Bissau, Angola e Moçambique manifestaram a sua oposição à versão com AO, insistindo que o documento "tem que ser apreciado superiormente", com o responsável moçambicano a referir casos, no passado, em que responsáveis governativos devolveram documentos "mal escritos" porque vinham na grafia do AO.
"Conhecendo esta realidade, não posso levar isto, este documento escrito assim. Se prevalece a assinatura da ata, que seja de acordo com a velha língua portuguesa - não temos como apresentar isso às autoridades", disse Abdurremane Lino de Almeida.
Depois de um debate de quase 30 minutos, o impasse acabou por ser resolvido com uma solução invulgar: duas grafias no mesmo texto, ignorando apelos dos que, como o representante do Brasil, recordaram que no passado sempre houve só uma ata. "Até no recente encontro dos ministros da Educação", disse Isulino Giacometi Junior, representante brasileiro.
A ata acabou por referir, no seu próprio texto, a oposição de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique à grafia do texto e a decisão, depois de debate, "que se aplicariam ambos os critérios em simultâneo".
 José Carlos Carvalho (Expresso on-line)

Uma honra para Portugal e para os portugueses

O antigo Presidente da República Jorge Sampaio é, em conjunto com a activista namibiana Helena Ndume, o vencedor do primeiro Prémio Nelson Mandela, anunciaram as Nações Unidas.
O galardão estabelecido pela Assebleia-Geral da ONU, a ser atribuído a cada cinco anos a um homem e uma mulher, visa premiar “feitos e contribuições excepcionais” ao “serviço da humanidade”.
Após abandonar Belém, Sampaio tem-se dedicado a causas humanitárias internacionais. Alto representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações durante seis anos, foi também enviado especial do secretário-geral da ONU para o combate à tuberculose, tendo sido distinguido pela Organização Mundial da Saúde em 2012. 
Actualmente, é o principal promotor de uma iniciativa para acolher estudantes universitários sírios em instituições portuguesas de ensino superior.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

OS TANATOS ANDAM À SOLTA AO COLO DOS TARTUFOS




Não se trata de nenhum grupo de animais que tenha fugido do jardim zoológico de Lisboa. Haja calma que não teremos felinos ou répteis ao dobrar da esquina. Na verdade estamos a falar de senhores e senhoras que se deslocam em carros pretos topo de gama e que se encontram connosco em casa sempre que vemos os jornais da tarde e da noite das nossas televisões. Chamam-lhes governantes (!) e dizem que governam! Enfim, um insulto para os vendedores honrados das chamadas “lojas do chinês”ou “loja dos 300”.
Na verdade, ando a matutar nisto há uns dias, desde que em conversa com amigos no jardim do Príncipe Real, em Lisboa, me foi garantido que a TAP iria ser vendida mesmo e já se falavam valores e tudo. Sempre que passava sobre a cidade um avião da TAP, eu olhava a ver se vislumbrava a costumeira placa “VENDE-SE”, mas não descortinei nenhuma. Ainda fui visitar a Torre do Tombo a ver se no exterior não estaria também uma dessas placas, mas felizmente não tinha. Na Basílica da Estrela também não. A única coisa com informação válida que encontrei foi um flyer na mesa de um café onde podia ler-se: WORKSHOP “COMO ROUBAR E DESTRUIR UM PAÍS” – Moderadores: Pedro Passos Coelho e Ricardo Salgado (mais informações fidedignas ligar para os Dr. Marques Mendes e Prof. Marcelo Rebelo de Sousa).
Bem… um caso de estudo a que Freud chamaria um figo, fiquei eu a pensar, e Moliére faria uma festa com estes dois “tartufos”, escolhidos a dedo pelo reino dos tanados a que Portugal e os portugueses estão sujeitos há quatro anos.
Um amigo dizia “Já venderam quase tudo o que tínhamos de melhor. Outro dizia “Estes gajos foderam tudo”e o terceiro concluía “o pior de todos ainda é o «cara-de-desmaio», que trata a gente por “cidadões” e anda com aquela canalha ao colo como se fossem  uma ninhada para desmamar». Quem?! – perguntei. «Quem?, olha-me este! O Cavaco, caralho!» Pois… bem vistas as coisas… lá fui apanhar um táxi e aproveitem a corrida para dialogar com os melhores informadores e barómetros de Lisboa, que são os taxistas.
- Amigo, Parque das Nações, por favor.
- O sr. é do Norte, não?
- Sim, sou, mas porquê nota-se muito?
- Não, é que eu também sou. Sou de campanhã, carago.
- E veio para Lisboa?
- Teve que ser… coisas da juventude, a rapariga ficou prenha e pronto…
- Como é que vai a vida por cá? -  perguntei. Que acha do governo?
- Ó amigo, pela sua saúde nem me fale nesses cabrões senão ainda temos um acidente! Ladrões de uma figa que destruíram isto tudo e se meteram debaixo das saias da gaja da Alemanha, ou que é… e nós a pagar e os gajos a gastar e a rirem-se de nós e o parolo de Boliqueime a comandar a banda. E ainda tem depois aqueles paus mandados nas televisões. O “Topo Gigio”anda mortinho por ir outra vez para o poleiro, e dá uma no cravo e outra na ferradura, sabe Deus quantos rabos-de-palha não terá, depois…
- Disse Topo Gigio?
- Sim, o Marques Mendes. Depois ainda há o “Galã de Cascais”
- Ah o Prof Marcelo.
Pois, mas esse sabe-a toda! Ó se sabe. Dá duas nas ferraduras do governo (devagarinho para não magoar o pequeno Pedrito) e depois dá duas fortes na oposição. Olhe que outro dia esse canário até elogiou os comunistas pra tramar o Costa! É o que lhe digo. O que ele quer bem eu sei… Quer ser Presidente da República, ah pois é, há muitos anos que que anda ali no mamuje aos domingos para se lançar. Até parece que estou já a ver os cartazes “Ou votas no Marcelo ou a Judite dá-te com o martelo” (gargalhadas). Ora cá estamos, amigo, são 10 euros obrigado.
Lá foi o sr. Isidoro taxista, e lá fiquei eu a pensar: Será que eles acham mesmo que os portugueses são burros? É que para o bem e para o mal, a televisão quase todos os portugueses vêem e todos percebem o desespero dos “Tanados”, do “cara-de-desmaio” e o trabalhinho dos tartufos “Topo Gigio” e “Galã de Cascais”. Ou será que não? A democracia que presamos também tem destas coisas – eleger mentirosos e servir de dossel para a incompetência. É a vida…

domingo, 26 de abril de 2015

Os “apanhados” do 25 de Abril de 2015!



Um dia depois das comemorações do 41º aniversário do 25 de Abril de 1974, depois de discursos e comentários, com adjectivos políticos esgotados, e o povo do Norte na rua com a chuva da revolta a escorrer pelas faces, ninguém destacou os “apanhados” ou “tesourinhos” do dia dos cravos. E aí temos que “tirar o chapéu” à direita no poder pelas gargalhadas que nos permitiram neste nosso país onde são bem maiores as razões para a tristeza da maioria dos portugueses!
Primeiro, o último discurso nesta data feito pelo Presidente da República, Cavaco Silva, que, dizem as más-línguas à boca pequena, terá sido escrito por Passos Coelho, e que dará a Cavaco Silva um epíteto para sempre: “ O senhor Cidadões” – foi assim que ele se dirigiu aos cidadãos portugueses, embalando o governo do seu partido ternamente, implorando quase perdão de corda ao pescoço, ou seja, mais do mesmo de um inculto militante, a pedir uma espécie de orgias partidárias (menage à trois?) com a mesma ausência de pudor da actual “Troika à portuguesa”!
Segundo, o casamento assumido da união de facto dos partidos do governo, com o “irreversível” Paulo Portas a “comer de cebolada” e em directo Passos Coelho, com adjectivos (gemidos) cautelosamente elogiosos do seu cônjuge político, precavendo qualquer futura acção de violência doméstica em que pelos vistos Passos Coelho já foi perito! Enfim, um papel de noiva comovida a pensar: “Quando não se pode casar por amor, casa-se por conveniência!” 
Terceiro, o discurso de Passos Coelho, de cravo ao peito!!!! J !!! (como se os portugueses fossem estúpidos ou masoquistas), disse exactamente o que tem dito em cada discurso, ou seja, “Nada”! A sonhar com o seu insustentável pesadelo do ser! Por momentos pensei que ele estava a tentar imitar o Bruno Nogueira (desculpa ó Bruno, pela comparação) a ler um discurso escrito pela senhora Merkel, ou, interroguei-me: O que é que Passos Coelho anda a fumar? Sei lá… às vezes os regressos ao passado acontecem como terapia! Mas na verdade ele esqueceu-se de tomar a pílula há uns 4 anos e tem o cérebro grávido de mentira, que vai parindo em cada discurso, como se fosse mais uma ressaca de uma grande “ganza”!
Certo mesmo é que temos que agradecer a esta “espécie” de “irmãos metralha” a gargalhada que já provocam de cada vez que aparecem e abrem a boca!
E não se esqueçam os apoiantes do novo “acordo ortográfico” que desde ontem “cidadãos” passa a escrever-se “cidadões”, disse o senhor Silva que, pelos vistos nunca deixou de ser de Boliqueime!

JBA

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

HOMENAGEAR O MESTRE SEM ESQUECER A REALIDADE ACTUAL

Nada mais justo para recomeçar um conjunto de crónicas como relembrar um episódio de há poucas semanas com o meu querido amigo e "mestre de nós todos", Baptista-Bastos, com a sua "dispensa" política do DN. Nessa altura escrevi: «É o resultado da estultícia do lobo neo-liberal (leia-se fascista) vestido de cordeiro!!! Rejeitar, dispensar a frontalidade, a verdade e o carácter, para além do profissionalismo e do ensinamento literário de Baptista-Bastos, é rasgar ao meio a dignidade do jornalismo português e da liberdade de imprensa. Portugal não pode ficar calado. É preciso denunciar esta corja de ignorantes e ignóbeis administradores do Diário de Notícias. Que comece aqui a denúncia. Já. Qualquer jornal que se prese deseja com urgência as palavras de Baptista-Bastos.»
Mantenho, e, nem tive tempo para esperar muito com a notícia de que alguém com inteligência e visão o tinha ido de imediato buscar para o Correio da Manhã.
Lembrei-me bem do dia em que esta "gentinha" que está agora no poder nacional me fizera o mesmo ao afastar-me de uma revista regional que fez história e que ajudei a nascer, que alimentava em quase 80% com o meu trabalho, mas que a crise aliada à mediocridade ditaram que eu tivesse que ser afastado porque a verdade estava a incomodar o poder instalado em determinada autarquia! Daquelas onde chegam políticos , (supostamente democratas) de café ou de barbeiro e se transformam em ditadores de meia tigela de "casa de chá" ou de "coiffeur". Enfim, coisas de quem talvez tenha tomado chá em pequenino, mas... não herdou a chávena!... É claro que a revista pouco mais durou. Morreu, como morrem todos os projectos infectados pelo vírus do narcisismo e da partidarite caseira.
No país, os portugueses deixaram-se levar por um conjunto de "boys" doutorados, ora na arte de mentir, ora por compra de créditos e títulos em "universidades" privadas, e , eis o resultado: Habituados a dizer "sim, Sr. Professor." os rapazes disseram "Sim, Sra Merkel" e os portugueses começaram o calvário que vivemos há três anos. E os inergúmenos dos rapazes sorriem e pedem votos e aplausos!!!| Lata eles têm, justiça seja feita.
Estava a lembrar-me que, no tempo em que o poder se conquistava pela força das armas, a Europa teve um Hitler de bigode, agora que o poder se conquista através dos "prostíbulos" dos mercados financeiros, temos um Hitler de saias. Ainda por cima feia como o raio que a parta! Vamos falando, porque há muito que falar... em português, enquanto nos deixarem, se o rapaz Crato não tiver que acatar as ordens do seu homólogo do Luxemburgo, e com justiça, se o Xanana Gusmão não vier governar para Portugal.

Voltar de novo cinco anos depois!

Provocado por muitos amigos para voltar ao universo dos bloguistas, para comentar sem lápis azul as graças e desgraças que se passeiam por este nosso país e pela Europa dos outros, denunciando os homens e as mulheres, mas também o açúcar dos dias, aqui volto, cinco anos depois, à minha "praia" da crónica com regularidade, em português de lei, sem A.O. nem outras mediocridades, doa a quem doer. Até já.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Uma consoada diferente



25 de Dezembro de 2009 – madrugada adentro, noite fria por fora, inicia-se a consoada deste natal diferente na tebaida de um escritor (entenda-se um tipo que ganha a vida a escrever livros e outras coisas que dão dinheiro para a sopa). A dúvida é se a mesa é suficientemente grande para tantos convidados! ; foram chegando ao longo da semana pela mão de pessoas, da triste realidade e ainda por via da veemente intimidade a que nos obriga a solidão.
Aristides de Sousa Mendes veio para contar a sua história; Gabriel Garcia Márquez também, e nenhum gosta de bacalhau cozido, o que é um descanso para mim; entretanto chegou o Ricardo Araújo Pereira com as crónicas debaixo do braço e com uma fome desgraçada; o último a chegar foi o Chico Manata, residente do “hotel estrela” e que apenas trazia fome e um cartão novo acabadinho de receber pelo pai natal para dormir esta noite de consoada no aconchego do passeio da avenida da liberdade.
Cada um portador da sua filosofia de vida, todos capazes de se rirem de si próprios, antes de se sentarem à mesa olharam-me a estante dos livros de sempre e ainda sugeriram que se convidasse o Fernando Pessoa, apesar de muito coçado, mas a maioria votou contra, até porque o tipo era um facho do carago , sidonista assumido, há quem diga que pouco amigo do sexo oposto e ainda por cima esquizofrénico! Era só o que faltava para uma consoada como esta. Da política colombiana à fuga dos judeus para Portugal, tudo foi esmiuçado na nossa ceia da passada madrugada. Só o Chico Manata comia para mais uns dias de avenida da liberdade, como ele dizia “a trabalhar para a linha” e depois assoava-se ao guardanapo e limpava os olhos à manga da gabardina que lhe aconchega o frio dos últimos cinco anos.
A porra da televisão está sem som, como deve de ser, porque aqui a missa é outra e outros galos cantam… aqui as orações são mais revoltas que esperanças e a fome de que se fala é mais a dos outros – dos sem-abrigo como o Chico Manata, dos putos à volta dos contentores de lixo na cidade da Praia, dos reclusos de todas as espécies, das crianças da Somália, da Etiópia, do Uganda, de Darfur e dos outros países onde nem existe o conceito de fome porque não existe o conceito de alimentação, das mães desesperadas porque as mamas lhes secaram e nada lhes resta a não ser assistir à morte dos filhos de olhar branco e parado, como o dos veados à espera de serem abatidos. Enfim… dos 800 milhões de seres humanos que no planeta vivem à fome.
Com excepção do Chico, todos deixamos o bacalhau no prato, desligou-se a televisão e fomos à vida. Esta manhã, tinha um bilhete debaixo da porta com um poema que não leio para não vos estragar o natal; era do Chico Manata a agradecer o resguardo da minha soleira, onde apreciou o aconchego do novo cartão-cobertor do pai natal deste ano.
Virei-me para o Fernando Pessoa, de olhar cabisbaixo, e disse-lhe: sobre estes gajos é que tu nunca escreveste, meu cabrão, e o poeta calou-se, envergonhado dentro de uma das suas personalidades.
Para o ano prometo convidar outros convivas e continuar com a televisão sem som.