CAVACO SILVA E SANTANA LOPES ASSINARAM O AO90 E DEVERIAM TAPAR HOJE A CARA DE VERGONHA
Aí está um dia de que todos devemos orgulhar-nos, ideal para lutar contra um acordo ortográfico abjecto, errado e ofensivo da língua portuguesa e da identidade nacional. Esta "desgraça" começou em Novembro de 1989, no Brasil numa cimeira patrocinada por José Sarney, onde o secretário de estado da cultura de então, Pedro Santana Lopes (aquele que falava despudoradamente dos concertos de violino de Chopin!), assinava o que viria a ser o AO1990, por ordem expressa do 1º ministro de então Cavaco Silva (o mesmo que hoje trata os portugueses por "cidadões"!).
E é esta tralha de gentinha que hoje se encontra sózinha neste (des)acordo ortográfico que fere de morte a língua portuguesa e que, ao contrário do que andam a gritar por aí, apenas põe "Portugal Atrás".
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
A Justiça portuguesa sem máscara - Salazar não faria melhor!
A dúvida que nos assaltava há muito
tempo, teve ontem a resposta final. Alguns dos magistrados portugueses e
mandarinetes do Ministério Público e seus quejandos enganaram-se na profissão! Cirurgia
político-jurídica deveria ter sido a sua formação académica de base, e, aí sim,
teriam sido alunos brilhantes.
A política portuguesa dos nossos
dias teria sido extremamente útil a Maquiavel, e, porventura, tudo teria sido
diferente no reino Florentino e Lourenço de Médici não seria hoje considerado
um “menino de coro” ao lado dos políticos esmagadoramente medíocres do século
XXI! O que não teria feito Maquiavel com as redes sociais!
Ontem foi “ libertado” sem pulseira
electrónica o ex-Primeiro- Ministro José Sócrates, depois de quase um ano preso
em Évora sem acusação formada nem provas que permitissem a mesma. No
entretanto, todos os actos empreendidos pelas instâncias judiciais, desde o
Ministério Público ao Juiz de instrução, foram “coincidentemente” cirúrgicas,
ou seja, em “prime-time” com actos importantes do PS de António Costa.
Coincidência? Não é que eu acredite em bruxas, “pero que las hay, hay!”. Desde
as fugas de informação da hora exacta da chegada de Sócrates ao aeroporto onde
foi detido em Novembro de 2014, até aos sucessivos indeferimentos aos pedidos
de recurso judicial que sempre coincidiram com iniciativas do Partido
Socialista e de António Costa, desde o congresso que elegeu Costa como
secretário-geral até à tarde de ontem, onde Costa teve à mesma hora da decisão
de” libertar” Sócrates, uma chegada
apoteótica ao Porto, onde o esperavam milhares de pessoas com a esperança de
que este será o líder capaz de devolver a esperança aos portugueses e devolver
a dignidade roubada aos cidadãos por uma direita neoliberal de “meninos”
impreparados e obedientes ao novo Hitler de saias, que vai ganhando uns
milhares de milhões de euros à custa dos pequenotes da Europa.
Se dúvidas havia, estão desfeitas.
Impossibilitados de utilizar o passado impoluto de Costa, os “meninos” de
Passos Coelho e do “irreversível” Paulo Portas, uma espécie de filhos bastardos
do ex-colaborador da PIDE, Aníbal Cavaco Silva, utilizaram a prisão preventiva
de um ex-primeiro-ministro socialista sem acusação formada, para passearem a nu
a estultícia lamacenta em que pastam, arrastando com eles a maioria dos
portugueses. Com um argumento destes teria sido bem diferente a história dos
célebres “irmãos Metralha” – Walt Disney teria esfregado as mãos de contente
com tanta matéria para criação.
Eles são governantes, comentadores
políticos, alguns órgãos de comunicação social e até jornalistas alinhados! A
tristeza de um país que rasgou oceanos e mergulhou no mais sujo underground da política!
Como se tudo não chegasse para
demonstrar as “boas intenções” do desespero próprio dos afogados (os rapazes
não sabem nadar, iôoo!) e, como sempre, com um pé dentro e outro fora, o CDS-PP
deixou no dia de ontem as despesas de tentativa de salvação para o rapaz Nuno
Melo, que acusa Costa de promover a desertificação ao defender o acolhimento de
refugiados em Portugal! O rapaz é bom publicitário, mas com um pequeno grande
defeito: É burro.
Por seu lado, Assunção Cristas
(Cristas de galinha poedeira ou de garnisé?) não sabe ouvir e apenas se
preocupa com os cidadãos e seres humanos que servem a sua mentecapta noção de
sociedade – os senhores “doutores”, engenheiros e arquitectos – esquecendo as
pessoas sem formação que podem ser igualmente úteis às sociedades, sem títulos
e, porventura, com mais dignidade e eficácia! Enfim… coisas da direita bacoca
que põe à frente de ministérios algumas mulherzinhas cujo curriculum maior é a
habilidade para parir. Pobres ninhadas…
Os portugueses agora ficam muito
mais esclarecidos. Temos de agradecer a este “Estado” o alerta para o que temos
que evitar e rejeitar, com o nível político e educacional que esta escumalha
não tem. Como diz Tiago Bettencourt: ACORDA PORTUGAL.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
MAIS UMA CAVACADA PARA DIMINIUR PORTUGAL
O Presidente da República Portuguesa, Cavaco Silva ratificou
acordo que exclui o português do Tribunal de Patentes, ou seja, a língua
portuguesa, pela assinatura de Cavaco, passou a “lixo” na União Europeia, nomeadamente ao Tribunal Europeu
de Patentes! Foi apenas isto que Cavaco Silva assinou e que não permite o
acesso dos portugueses à justiça europeia na sua própria língua. O sr. Aníbal
boliqueimou a nossa língua! Aliás, já o tinha feito em Novembro de 1989,
no Brasil, ao dar ordens ao seu
secretário de Estado da Cultura de então, Santana Lopes (aquele que gostava de
ouvir os concertos de violino de Chopin, lembram-se?), para assinar o AO1990. Foi o próprio Santana Lopes
que disse sem hesitações que: «Cavaco Silva foi peremptório: em seu entender, o
Acordo Ortográfico era essencial para que, no século XXI, o português falado em
Portugal não ficasse com um estatuto equivalente ao do latim…”. Disse a voz da
ignorância pura de um suposto representante da Nação que trata os portugueses
por “cidadões” nos discursos oficiais.
Já não sei se havemos de ter pena e é nossa obrigação piedosa
perdoar-lhe, ou se, exigir ao homenzinho de Boliqueime que jurou defender a
constituição, Portugal e os portugueses, para assumir a sua senilidade visível
e sair já de Belém. É que a continuar assim, - cada tiro, cada melro – de cada
vez que o Presidente da República entra em cena, Portugal fica mais pobre, diminuído
e a nossa identidade a esvair-se a caminho de ser uma nova província espanhola ou uma estância
de férias alemã com SPA natural.
sábado, 1 de agosto de 2015
São Demasiado Pobres os Nossos Ricos
A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos «ricos». Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.
O maior sonho dos nossos novos-rícos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMWnão podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas, muito convexos e estradas muito concavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza. Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.
As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. Por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam. O fausto das residências não os torna imunes. Pobres dos nossos riquinhos!
São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam de ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.
Mia Couto, in 'Pensatempos'
A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos «ricos». Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.
O maior sonho dos nossos novos-rícos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMWnão podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas, muito convexos e estradas muito concavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza. Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.
As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. Por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam. O fausto das residências não os torna imunes. Pobres dos nossos riquinhos!
São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam de ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.
Mia Couto, in 'Pensatempos'
terça-feira, 14 de julho de 2015
A gente do AO: Políticos modernaços e ignorantes - Pacheco Pereira
Os apátridas da língua que nos governam.
Uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.
À memória do Vasco Graça Moura
Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.
Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.
Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.
É um problema da nossa identidade como portugueses que está em causa, na forma como nos reconhecemos na nossa língua, na sua vida, na sua história e na sua proximidade das fontes vivas de onde nasceu: o latim. Não é irrelevante para o português e a sua pujança, a sua capacidade de manter laços com a sua origem no latim e assim comunicar com toda a riqueza do mundo romano e, por essa via, com o grego, ou seja, o mundo clássico onde nasceu a nossa cultura ocidental. Esta comunicação entre uma língua e a cultura que transporta é posta em causa quando a engenharia burocrática da língua a afasta da sua marca de origem, mesmo que essas marcas sejam “mudas” na fala, mas estão visíveis nas palavras. As palavras têm imagem e não apenas som, são vistas por nós e pela nossa cabeça, e essa imagem “antiga” puxa culturalmente para cima e não para baixo.
O AO é mais um passo no ataque generalizado que se faz hoje contra as humanidades, contra o saber clássico e dos clássicos, contra o melhor das nossas tradições. Não é por caso que ele colhe em políticos modernaços e ignorantes, neste e nos governos anteriores, que naturalmente são indiferentes a esse património que eles consideram caduco, ultrapassado e dispensável. Chegado aqui recordo-me sempre do “jovem” do Impulso Jovem aos saltos em cima do palco a dizer “ó meu isso não serve para nada”, sendo que o “isso” era a história. Esta é a gente do AO, e, como de costume, encontram sempre sábios professores ao seu lado, os mesmos que vêem as suas universidades a serem cortadas, em nome da “empregabilidade”, da investigação nas humanidades e em sectores como a física teórica e a matemática pura, teorias sem interesse para os negócios. “Ó meu, isso não interessa para nada!”.
José Pacheco Pereira
Uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.

À memória do Vasco Graça Moura
Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.
Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.
Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.
É um problema da nossa identidade como portugueses que está em causa, na forma como nos reconhecemos na nossa língua, na sua vida, na sua história e na sua proximidade das fontes vivas de onde nasceu: o latim. Não é irrelevante para o português e a sua pujança, a sua capacidade de manter laços com a sua origem no latim e assim comunicar com toda a riqueza do mundo romano e, por essa via, com o grego, ou seja, o mundo clássico onde nasceu a nossa cultura ocidental. Esta comunicação entre uma língua e a cultura que transporta é posta em causa quando a engenharia burocrática da língua a afasta da sua marca de origem, mesmo que essas marcas sejam “mudas” na fala, mas estão visíveis nas palavras. As palavras têm imagem e não apenas som, são vistas por nós e pela nossa cabeça, e essa imagem “antiga” puxa culturalmente para cima e não para baixo.
O AO é mais um passo no ataque generalizado que se faz hoje contra as humanidades, contra o saber clássico e dos clássicos, contra o melhor das nossas tradições. Não é por caso que ele colhe em políticos modernaços e ignorantes, neste e nos governos anteriores, que naturalmente são indiferentes a esse património que eles consideram caduco, ultrapassado e dispensável. Chegado aqui recordo-me sempre do “jovem” do Impulso Jovem aos saltos em cima do palco a dizer “ó meu isso não serve para nada”, sendo que o “isso” era a história. Esta é a gente do AO, e, como de costume, encontram sempre sábios professores ao seu lado, os mesmos que vêem as suas universidades a serem cortadas, em nome da “empregabilidade”, da investigação nas humanidades e em sectores como a física teórica e a matemática pura, teorias sem interesse para os negócios. “Ó meu, isso não interessa para nada!”.
José Pacheco Pereira
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Acordo Ortográfico para o lixo. JÁ
Vice do Supremo diz que o acordo ortográfico é inconstitucional e não pode ser usado nos tribunais
Num voto de vencido, no âmbito do caso em que foi confirmada a pena disciplinar do juiz Rui Teixeira, o vice-presidente da mais alta instância judicial denuncia que o Governo usurpou poderes e colocou em causa o princípio da identidade nacional e cultural e o direito à Língua Portuguesa.
O vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça Sebastião Póvoas considera que a aplicação da resolução do Conselho de Ministros que obrigou as escolas e todos os organismos do Estado a aplicar o novo acordo ortográfico é inconstitucional e não pode ser aplicada também nos tribunais.
“Independentemente de abordar a constitucionalidade e a legalidade desta resolução, é inquestionável que a mesma não se aplica aos tribunais mas, apenas, e eventualmente à Administração Pública”. Sebastião Póvoas denuncia que o Conselho de Ministros, com esta resolução que é “inconstitucional a título orgânico”, violou “os princípios da separação de poderes”, não respeitou a “equiordenação entre os órgãos de soberania” e a “independência dos tribunais“. Acusa também o Conselho de Ministros de “usurpação de poderes”.
A denúncia foi deixada pelo magistrado da mais alta instância judicial em Portugal numa declaração de voto de vencido a propósito da decisão do Supremo que recentemente confirmou a pena disciplinar ao juiz Rui Teixeira por este ter rejeitado receber documentos com o novo acordo ortográfico. “Nos tribunais, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário”, escreveu então Rui Teixeira num despacho.
Sebastião Póvoas concorda e elogia aquele juiz, destacando que foi “rigoroso” por ter, afinal, tentado evitar “a aplicação de um tratado não vigente”.
E porquê é que o tratado não está afinal em vigor? “Se o Acordo/Tratado não foi ratificado por todos os Estados que o subscreveram (e não o foi, seguramente, por Angola e Moçambique) não está em vigor na ordem jurídica internacional”, esclarece Sebastião Póvoas.
O juiz avisa que o novo acordo ortográfico coloca em causa princípios e direitos consagrados na Constituição da República, como o “princípio da identidade nacional e cultural”, o “direito à Língua Portuguesa” e o “princípio da independência nacional devido às remissões para usos e costumes de outros países, para se apurar quais as normas resultantes de algumas disposições do acordo ortográfico, que remetem para o critério da pronúncia”.
Neste ponto, o Sebastião Póvoas sublinha que a Constituição “não pode ser alterada através de uma lei de revisão constitucional, mediante a consagração de vocábulos estranhos ao Português europeu, seguindo o acordo ortográfico, por atentar contra limites materiais de revisão”.
A resolução do Conselho de Ministros de 2011 determinou que, “a partir de 1 de Janeiro de 2012, o Governo e todos os serviços, organismos e entidades sujeitos aos poderes de direcção, superintendência e tutela do Governo aplicam” a nova grafia “em todos os actos, decisões, normas, orientações, documentos, edições, publicações, bens culturais ou quaisquer textos e comunicações”. Para o vice-presidente do Supremo, porém, esta resolução “consubstancia uma ordem” e um poder que o Governo “não tem em relação à administração indirecta e à administração autónoma”, onde se incluem os tribunais.
No caso concreto de Rui Teixeira, o Supremo considerou que o juiz violou o dever de obediência e de correcção. Estava em causa uma comunicação do Conselho Superior da Magistratura (CSM) datada de 2012. O CSM concluiu que não pode indicar aos juízes se deveriam ou não escrever conforme o novo acordo ortográfico ao mesmo tempo que os advertiu que não poderiam indicar aos “intervenientes processuais quais as normais ortográficas a aplicar”.
Sebastião Póvoas salienta que esta deliberação do CSM não foi comunicada aos juízes. O conselho “limitou-se a constar [publicar] a acta no sítio do CSM e não nos lugares próprios”, que neste caso, “seriam as janelas, avisos” ou “circulares que os juízes consultam”. Lembra ainda que os “tribunais são independentes e apenas estão sujeitos à lei” e não a “ordens e instruções”. O conselho, sendo um órgão de gestão e disciplina, não pode dar ordens aos juízes, conclui.
Muitos juízes e procuradores estão a favor e outros tantos contra a nova grafia pelo que a questão não é pacífica no meio judicial. A presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, Maria José Costeira, e o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas, recusaram, aliás, comentar o tema.
domingo, 5 de julho de 2015
HOJE É DIA DE ABRAÇAR CABO VERDE
No dia da minha “segunda pátria
de adopção”, esse arquipélago que brotou no meio do atlântico e onde o mundo se
misturou para criar uma África diferente. A terra onde as nuvens se esquecem de
chorar, mas os sorrisos não! Mesmo aqueles sorrisos sem tecto para dormir, sem
pão para cada dia! Mesmo assim sorriem, têm fé e amam-se! Estranhamente, ou
não, assim é nas nove ilhas deste arquipélago com 40 anos de identidade
própria, que conheço bem e amo com saudades.
Saudades dos cabo-verdianos, do
crioulo falado e cantado e lido, dos cheiros da terra molhada e da secura
também, do sal do mar em cujas águas os olhos escrevem até ao azimute da
imaginação. “O entardecer existe em qualquer parte do mundo, mas é na ilha que
de facto existe o repouso das coisas vivas…” escreveu Vasco Martins.
Hoje será dia de reler também “O
meu Poeta” do Germano Almeida, mas também a poesia do Oswaldo Osório, do José
Luís Tavares, do Arménio Vieira, e , as crónicas, as cartas e as mornas de Eugénio Tavares. Também olhar de frente as pinturas do
Tchalé Figueira, do Abraão Vicente e de tantos outros artistas enormes do”
império” da cultura africana. Reler Vicente Lopes e as causas da independência
e o surgimento da democracia é obrigatório. Abraçar Amílcar Cabral com a mesma
convicção com que se abraçam os heróis da democracia liderados por Carlos
Veiga, também. Tudo a ouvir Cesária, Tito, Vadu, Ildo Lobo, Paulino, Lura…
Hoje, haja festa e orgulho
cabo-verdiano em cada rosto, de Santo Antão à Brava, de S. Vicente ao Fogo, a
S. Nicolau, a Maio, a Santiago, a todas as ilhas e gentes.
Mas haja também reflexão,
pensamento livre, consciência livre para que a democracia funcione na sua
plenitude, com mais dignidade e trabalho para todos. Leio um homem intemporal –
Baltasar Lopes – que numa citação de 1956 escreveu que «Cabo Verde parece-me
sempre um problema a solucionar». E CABO VERDE TEM SOLUÇÃO.
ABRAÇO KU TCHEU SODADE PA NHOS TUD. VIVA CABO VERDE.
JBA 5/7/2015
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